Patrícia Rocco começou a navegar pelos mares do jornalismo quando ainda era estudante na Fundação Cásper Líbero. A jovem idealista se deparou com uma realidade bem diferente do que imaginava e aprendeu na prática como as coisas realmente funcionam. Passou pela TV Gazeta, A Gazeta Esportiva, Revista Simples?, TV Cultura e Rede TV! e hoje é assessora de imprensa de uma empresa de tecnologia.
Fui recebida com muita simpatia pela loirinha divertida e toda tatuada. Conversamos em sua mesa, entre pilhas de papéis bagunçados e bonecos de criança. O escritório estava cheio, mas parecia que estávamos a sós, ela me deixou muito a vontade e demos boas gargalhadas durante a entrevista. Com muita doçura narrou sua trajetória e experiências de vida fantásticas, capazes de inspirar ainda mais os amantes do jornalismo. Depois de 10 anos de muita dedicação, e com apenas 31 anos, ela conta o que a impulsionou a mergulhar na profissão e como conseguiu se tornar uma excelente profissional.
Meninadocabelorosa: Porque você escolheu o jornalismo?Paty Rocco: Desde criança, sempre gostei muito de ler. E mantive o hábito. Por conseqüência, escrever sempre foi uma tarefa fácil e prazerosa. Quando estava na 5ª. série, ganhei um concurso de redação que envolvia alunos de todas as séries do ginásio. Como prêmio, fui conhecer a editora FTD e ajudar na confecção da agenda que lançariam no ano seguinte. Fiquei muito feliz ao ver meu nome publicado como colaboradora naquele trabalho. Este foi o primeiro momento em que percebi o quanto é bom você ver o próprio nome atrelado a uma produção de texto e de idéias. Por outro lado, sempre fui comunicativa e curiosa por natureza. Escolher o jornalismo como profissão foi, na verdade, uma conseqüência dos meus gostos pessoais. Queria um trabalho que unisse a escrita à possibilidade de estar sempre descobrindo e aprendendo coisas novas. Portanto, antes mesmo de chegar ao colegial, já sabia instintivamente que seria jornalista.
Meninadocabelorosa:Qual a sua opinião em relação ao curso de jornalismo?
Paty Rocco: Gostei muito do curso, mas sinceramente acho que a faculdade não prepara ninguém para ser um bom jornalista. A experiência que acumulei até aqui me mostrou que não basta escrever ou falar bem. O aspirante a jornalista precisa, antes de tudo, ter amor por alguma área do conhecimento – sejam artes, história, ciências... – e dedicar-se a ela com empenho. Além disso, é necessário ter a curiosidade e vontade de aprender como um princípio de vida. E isto a faculdade não dá para ninguém.
Meninadocabelorosa: A formação de jornalista prepara o estudante para o dia-a-dia da profissão?
Paty Rocco: Não. Como disse anteriormente a formação ajuda, mas não se encerra no curso. Antigamente os jornalistas eram pessoas sem formação específica, pois não existia faculdade para formar este tipo de profissional. Quem se dedicava a este ofício eram intelectuais de formações diversas, mas que, naturalmente, eram comunicadores. Sentiam, instintivamente, o desejo de compartilhar a informação, o conhecimento que tinham ou até mesmo defender publicamente um ideal. Esta sim é a beleza de se exercer qualquer ofício. A dedicação e a crença no que se faz.
Meninadocabelorosa:Falta alguma coisa para essa turma que está se formando agora?
Paty Rocco: É difícil generalizar, mas pelo pouco que tenho observado, me parece que as pessoas hoje estão mais preocupadas em obter um diploma do que encontrar em si mesmo o que realmente as realiza na vida. Isto é muito triste, pois cada vez mais vemos a imprensa se afastando do que se entende por jornalismo. Imagine um aspirante a jornalista que não lê! Ou que não gosta de ler. Que busca neste diploma apenas um trampolim para “ascender” socialmente. Isto tem sido muito comum... Assim como quase tudo que nos é contemporâneo, o jornalismo tem sido engolido pela agressividade do mundo do consumo e do showbusiness. O que falta para uma parcela das pessoas que estão se formando? Ideal de vida. Saber verdadeiramente o papel que a imprensa exerce em uma sociedade e o poder que tem para transformá-la tanto positiva como negativamente.
Meninadocabelorosa: Como foram as suas experiências como estagiária? O que elas agregaram à sua formação profissional?
Paty Rocco: Tive muitas experiências como estagiária. Comecei trabalhando na Assessoria de Comunicação da TV Gazeta. Depois fui contratada como repórter/estagiária no jornal A Gazeta Esportiva para atuar no caderno de Cidades e Cultura. Nesta época, a redação ficava no prédio da Folha de S. Paulo e a proximidade com tantos jornalistas foi muito importante para a minha formação. Depois fiz freelas para revistas femininas, trabalhei em editora de revistas técnicas como repórter/estagiária, TV Cultura, Rede TV!, Revista Simples?, entre outras. Toda essa experiência foi, na verdade, a minha formação.
Meninadocabelorosa:Você faria alguma coisa diferente se estivesse se formando hoje?
Paty Rocco: Durante os 4 anos que cursei a faculdade, busquei incansavelmente a experiência. Não tive medo. Trabalhei de graça quase que todo o tempo e isto foi muito importante, pois me deu bagagem e contatos. Isso certamente eu não mudaria. Acho que buscaria mais tempo para ler, ler, ler.
Meninadocabelorosa:Quais são as características que um profissional de jornalismo deve ter?
Paty Rocco: Amor pelo ofício. Assim como em toda a profissão. Se você gosta verdadeiramente do que faz, não se importará com os obstáculos que aparecerem em sua frente. Você os encarará como aprendizado.
Meninadocabelorosa:Você se decepcionou com a profissão?
Paty Rocco: Sim porque sempre fui uma pessoa idealista. Encarava o jornalismo como uma forma de contribuir para a sociedade de forma positiva. Levando a informação isenta. O que encontrei no mercado foi sempre a não isenção velada, devido ao posicionamento político de cada veículo onde trabalhei. Outra coisa que me chateou muito foi perceber o quanto as pessoas desta área são egocêntricas. Ser obrigada a lidar com isto sempre foi uma dificuldade para mim. Depois de trabalhar em diversos lugares como repórter, redatora e até roteirista, acabei rumando para assessoria de imprensa, o que era inadmissível na época da faculdade. A gente aprende né? (risos)
Meninadocabelorosa: Como você avalia o mercado de trabalho para o jornalista nos dias de hoje?
Paty Rocco: O mercado de trabalho para o jornalista sempre foi um terreno fértil, porém árido. Trabalha-se muito, ganha-se pouco. Hoje temos ainda um agravante... o número de formandos que as faculdades despejam por aí todos os anos. É claro que o mercado não absorve todo mundo. Não tem espaço! Portanto, cada vez mais a especialização e a certeza do que se faz tem sido um fator de diferenciação entre os profissionais.
Meninadocabelorosa:Na sua opinião, o jornal impresso sofrerá alguma modificação devido ao fato de muitas pessoas buscarem informações na internet?
Paty Rocco: Essa foi uma discussão intensa há algum tempo. Mas podemos ver que, passados já alguns anos, o jornal impresso continua aí, firme e forte. Acredito que a Internet veio para somar, para facilitar o acesso à informação. Porém, os vejo como veículos complementares. Sou assinante de jornal e gosto do papel. Gosto de folhear o jornal, a revista. Sentir o cheiro. Assim como um livro. Não é a mesma coisa ler na tela e sentir a história nas mãos.
Meninadocabelorosa:Você quer deixar algum recado para os futuros jornalistas?
Paty Rocco: Pelo amor de deus, meu povo! Vamos ler!! Vamos estudar... gostar do que se faz. A imprensa precisa muito de uma nova safra de profissionais mais idealistas, mais conscientes do seu papel. A transformação passou da hora de acontecer. E ela só será possível com profissionais preparados, com boa postura, boa formação, bons argumentos. A chave? Só existe uma... o conhecimento.
Essa é uma homenagem singela a essa grande amiga e excelente profissional, que me deu a oportunidade de ser sua "pupila"!! Paty, obrigada por tudo!!!